A CRISE DOS PSICOFÁRMACOS: USO EXCESSIVO DE BENZODIAZEPÍNICOS E ANTIDEPRESSIVOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
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Palavras-chave

Psicofarmacologia; Benzodiazepínicos; Psiquiatria.

Como Citar

Freitas Niza, V. ., Sapucaia Oliveira, L. ., Gonçalves Martins, K. ., & Wagmacker Barbosa, D. . (2025). A CRISE DOS PSICOFÁRMACOS: USO EXCESSIVO DE BENZODIAZEPÍNICOS E ANTIDEPRESSIVOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE. Estudos Avançados Sobre Saúde E Natureza, 19. https://doi.org/10.51249/easn19.2025.2612

Resumo

O aumento significativo do uso de psicofármacos, especialmente benzodiazepínicos e antidepressivos, na atenção primária à saúde (APS) tem gerado preocupação devido aos riscos associados ao uso prolongado, efeitos adversos e dependência. Essa tendência reflete tanto a crescente demanda por manejo de transtornos mentais quanto lacunas no diagnóstico e no tratamento psicossocial, evidenciando um fenômeno multifatorial que compromete a qualidade da assistência e a segurança do paciente. O presente objetivo consiste em analisar criticamente o panorama do uso excessivo de benzodiazepínicos e antidepressivos na APS, identificando fatores determinantes, consequências clínicas e estratégias para o manejo racional desses medicamentos. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura com abordagem qualitativa, destinada a analisar o impacto da psicofarmacologia, principalmente a prescrição e uso de benzodiazepínicos da atenção primária. A busca bibliográfica foi realizada entre agosto e setembro de 2023, contemplando artigos, documentos oficiais e revisões publicadas no período entre 2004 e 2023, com foco especial nos últimos cinco anos para refletir o cenário atual. As bases consultadas incluíram PubMed, SciELO, LILACS, Google Scholar e sites institucionais como da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde do Brasil. Estudos evidenciam que o uso indiscriminado e prolongado de benzodiazepínicos está associado a riscos significativos, como dependência química, tolerância, comprometimento cognitivo, quedas e acidentes, sobretudo em idosos. O consumo excessivo de antidepressivos, embora menos associado à dependência, pode provocar efeitos adversos relevantes, incluindo sintomas gastrointestinais, ganho de peso e alterações do sono. A elevada prescrição desses fármacos na APS está relacionada a fatores como o déficit de recursos para saúde mental, falta de treinamento específico dos profissionais, pressão por respostas rápidas e expectativas dos pacientes por soluções farmacológicas. Além disso, a ausência de protocolos claros para revisão e descontinuação contribui para o prolongamento inadequado do tratamento. Intervenções multidisciplinares que envolvam acompanhamento psicossocial, educação em saúde e programas de desprescrição são fundamentais para reverter esse quadro, promovendo o uso racional e seguro dos psicofármacos. Conclui-se que a crise do uso excessivo de benzodiazepínicos e antidepressivos na APS exige ações coordenadas para aprimorar a capacitação dos profissionais, fortalecer o suporte psicossocial e implementar políticas que incentivem a prescrição racional. O manejo adequado desses medicamentos é crucial para minimizar riscos, melhorar desfechos clínicos e promover a saúde mental de forma integral e sustentável.

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