Resumo
O uso massivo de redes sociais tem transformado a forma como indivíduos, especialmente crianças, adolescentes e jovens adultos, se relacionam, consomem informação e constroem identidade. Embora essas plataformas ofereçam benefícios relacionados à conectividade e ao acesso ao conhecimento, o uso excessivo tem sido associado a repercussões negativas na saúde mental, incluindo sintomas ansiosos, depressivos, distúrbios do sono, alterações da autoimagem e aumento do risco de dependência comportamental. Tais efeitos são particularmente preocupantes em fases críticas do neurodesenvolvimento, quando há maior vulnerabilidade às pressões sociais e aos reforços digitais. O objetivo do presente trabalho visa analisar os impactos do uso excessivo de redes sociais sobre o desenvolvimento psiquiátrico, destacando manifestações clínicas, mecanismos neuropsicológicos envolvidos e implicações para prevenção e intervenção em saúde mental. Trata-se de uma revisão bibliográfica qualitativa, descritiva e analítica. Foram incluídos artigos publicados entre 2018 e 2025 nas bases PubMed, SciELO, LILACS, Scopus e Web of Science, abrangendo estudos epidemiológicos, revisões sistemáticas, ensaios clínicos e pesquisas em neurociências. Evidências recentes indicam correlação significativa entre o uso excessivo de redes sociais e aumento de sintomas ansiosos e depressivos, com destaque para sentimentos de inadequação, comparação social negativa e solidão. Estudos longitudinais apontam que adolescentes com maior tempo de tela apresentam maior risco de transtornos de humor e comportamentos autolesivos, especialmente em grupos vulneráveis, como aqueles com histórico de bullying ou baixa autoestima. Do ponto de vista neurobiológico, a exposição contínua a reforçadores digitais (curtidas, notificações) está associada à hiperativação do sistema dopaminérgico mesolímbico, favorecendo padrões de uso compulsivo semelhantes aos observados em dependências químicas. Esse mecanismo compromete a regulação emocional e está relacionado à maior impulsividade e dificuldades atencionais. Outros impactos incluem alterações do sono (pela exposição à luz azul e ao uso noturno), comprometimento do rendimento escolar e maior vulnerabilidade a transtornos de imagem corporal, como dismorfia digital e transtornos alimentares. Estratégias de intervenção propostas incluem psicoeducação, promoção do uso consciente e limitado de telas, terapias cognitivo-comportamentais adaptadas ao contexto digital, além da necessidade de políticas públicas que regulem algoritmos, publicidade direcionada e exposição de jovens a conteúdos nocivos. Logo, o uso excessivo de redes sociais configura um fator emergente de risco para o desenvolvimento psiquiátrico, associado a sintomas ansiosos, depressivos, distúrbios do sono e dependência comportamental. A resposta clínica e social requer abordagem multidisciplinar, com integração entre profissionais de saúde, escolas e famílias, visando promover um uso equilibrado e saudável das tecnologias digitais. Investimentos em programas preventivos, regulação de plataformas digitais e pesquisas longitudinais são fundamentais para mitigar os impactos da era digital sobre a saúde mental.
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