Resumo
A cirurgia minimamente invasiva (CMI) consolidou-se nas últimas décadas como padrão para diversas urgências abdominais, com benefícios consistentes em dor pós-operatória, tempo de internação, complicações de ferida e retorno funcional. A incorporação de tecnologias como ópticas de alta definição/3D, seladores de energia, fluorescência por indocianina verde (ICG) e plataformas robóticas ampliou as indicações em cenários agudos (apendicite, colecistite, perfurações digestivas selecionadas, doença diverticular complicada), mantendo, porém, dilemas de seleção de casos, logística 24/7 e custo-efetividade. O presente objetivo busca analisar a evolução técnica da CMI aplicada às urgências abdominais e discutir desafios atuais relacionados à seleção de pacientes, segurança, resultados clínicos e implementação sistêmica. Trata-se de uma revisão bibliográfica qualitativa, descritiva e analítica de publicações nacionais e internacionais (2019–2025), incluindo diretrizes, estudos observacionais, ensaios randomizados e revisões sistemáticas nas bases PubMed, SciELO, LILACS, Scopus e Web of Science. Priorizaram-se evidências com aplicabilidade clínica em pronto-socorro e hospitais gerais. A laparoscopia é amplamente validada para apendicite aguda (menor infecção de sítio cirúrgico, melhor recuperação), incluindo casos complicados com abscesso quando há expertise e suporte de imagem/intervenção. Na colecistite aguda, a colecistectomia laparoscópica precoce (primeiras 72 horas) reduz reinternações e custos; ICG auxilia identificação do ducto cístico e pode diminuir lesões biliares em anatomias difíceis. Em doença diverticular, a laparoscopia é opção em Hinchey II/III selecionados para lavagem ou ressecção com anastomose primária conforme estabilidade hemodinâmica e grau de contaminação. Perfurações gastroduodenais de pequena monta podem ser tratadas por laparoscopia com rafia e omentoplastia quando há diagnóstico precoce e sem peritonite difusa prolongada. Em obstrução intestinal, a abordagem laparoscópica é viável em subgrupos (bridas únicas, sem distensão maciça); requer baixa pressão de pneumoperitônio e elevada proficiência técnica para evitar enterotomias. A laparoscopia diagnóstica mantém papel na avaliação de abdome agudo indeterminado e trauma penetrante selecionado, reduzindo laparotomias não terapêuticas. Avanços técnicos incluem ópticas 4K/3D, energia avançada hemostática, sutura intracorpórea assistida e fluorescência ICG para perfusão anastomótica e anatomia biliar. A robótica oferece ergonomia e destreza em pelve e inflamação intensa, mas seu uso em urgência é limitado por custo, disponibilidade e tempos de acoplamento. Estratégias de ERAS adaptadas ao cenário agudo (analgesia multimodal, mobilização precoce, otimização de fluidos) potencializam benefícios da CMI. Desafios persistem: (i) seleção de casos (instabilidade hemodinâmica, sepse refratária, peritonite extensa e falhas de reanimação indicam laparotomia); (ii) logística e acesso 24/7 a equipe treinada e equipamentos; (iii) curva de aprendizado e variação de resultados por volume institucional; (iv) manejo em pacientes especiais (idosos frágeis, obesidade, gestação, uso de anticoagulantes); (v) riscos específicos (lesão biliar, queimaduras por energia, complicações relacionadas ao pneumoperitônio em disfunção cardiorrespiratória). Em perspectiva de saúde pública, há disparidades de acesso entre centros urbanos e hospitais de menor porte; programas de capacitação, teleproctoring e protocolos de telerrobótica e tele-mentoria emergem como alternativas para difusão segura. Conclui-se que a CMI em urgências abdominais é segura e eficaz quando integrada a critérios rigorosos de seleção, reposição volêmica e controle séptico prévios, equipe experiente e infraestrutura adequada. A adoção de tecnologias (ICG, energia avançada, 3D/robótica) deve ser criteriosa e custo-efetiva, aliada a protocolos ERAS e auditoria de resultados. Prioridades atuais incluem: ampliar treinamento baseado em simulação, garantir disponibilidade 24/7, padronizar fluxos assistenciais e reduzir desigualdades de acesso. Assim, consolida-se uma abordagem que combina qualidade, segurança e eficiência no cuidado ao paciente com abdome agudo.
Referências
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